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"Verdade, benevolência e tolerância": princípios perseguidos na China
28/4/2004 10:30:00

Fonte: DHOnline!
Por: Giuliano Djahjah Bonorandi, colaborou Viviane Gomes.
 
O Falun Dafa é uma doutrina filosófica que busca cultivar características como verdade, benevolência e tolerância (Zhen-Shan-Ren), aperfeiçoando o caráter moral, a natureza da mente e o coração e buscando a evolução do ser humano em todos os aspectos – por isso seus praticantes referem-se a ela como uma “prática de cultivo”. Isto é alcançado com a realização de exercícios com movimentos tranqüilos e suaves para transformar corpos e mentes. A prática foi criada por Li Hongzhi, em 1992, mas em 1999 seus milhares de adeptos começaram a ser perseguidos – e o Falun Dafa, antes apoiado, foi proibido, classificado como superstição e culto diabólico.
 
Na ocasião, o número de praticantes do Falun Dafa era maior do que o de filiados do Partido Comunista da China. As autoridades viram a prática do Falun Dafa como um movimento político, uma ameaçadora ideologia.
 
A partir daí teve início uma série de graves violações dos direitos humanos. Até abril deste ano, foram registradas mais de 925 mortes de praticantes do Falun Dafa na China. Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, tais como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, elaboraram documentos que relatam a existência de mais de cem mil pessoas em campos de trabalho forçado, sofrendo torturas.
 
O brasileiro Jan Hendriks é praticante de Falun Dafa e participou de uma manifestação pacífica na China, em 2002, contra a proibição da prática e as violações de direitos. “Fui detido na Praça da Paz Celestial, levado a uma delegacia e lá me interrogaram. Depois me levaram para um outro local, sem que respondessem ao meu questionamento sobre o porquê daquela detenção. Não permitiram que eu contatasse a embaixada brasileira. Tomaram alguns dos meus pertences e não me devolveram. Eles me interrogaram e me ameaçaram durante todo o tempo, até que me colocarem em um avião para a França, dias antes de minha volta planejada ao Brasil”. Muitos integrantes do grupo, composto por trinta pessoas, foram espancados e tiveram tufos de cabelos arrancados, tanto homens como mulheres. “Estávamos tentando pacificamente contribuir para o fim dessa perseguição, bem como apoiar os praticantes chineses. Em resumo, queríamos ajudar a salvar vidas.”
 
DH Online! - O que é o Falun Dafa? Quais são as suas bases?
 
Jan Hendriks - Falun Dafa é um sistema de cultivo que objetiva o aprimoramento e a elevação do ser humano e tem como base as características do universo: Zhen-Shan-Ren (verdade, benevolência e tolerância). O cultivo refere-se ao aprimoramento do Xinxing, que representa o caráter moral, a natureza da mente e o coração, buscando a evolução do ser humano em todos os aspectos. Essa prática é composta por cinco séries de exercícios com movimentos tranqüilos e suaves e está relacionada à transformação do corpo, à medida que o Xinxing da pessoa vai se aprimorando. Com a prática e o cultivo do Falun Dafa, a pessoa pode atingir elevados níveis de sabedoria.
 
DH Online! - O movimento surgiu em 1992 e foi banido em julho de 1999 pelas autoridades do Partido Popular da China. As atividades do Falun Dafa foram proibidas, consideradas como superstições e, mais tarde, como “culto diabólico”. O movimento tem resposta para essa perseguição? Por que o governo chinês persegue o Falun Dafa?
 
Jan Hendriks - Quando o Falun Dafa foi introduzido ao público chinês pelo Sr. Li Hongzhi, em 1992, ele foi registrado na Associação de Pesquisa de Qigong*, da China. Mas o objetivo central do Falun Gong é diferente do propósito de outras linhas de Qigong, relacionadas a curar doenças, manter a saúde ou exibir poderes supernormais, fazendo disso um meio de ganhar dinheiro. Contrário a isso, em 1994, o Sr. Li Hongzhi retirou Falun Dafa dessa sociedade. Na ocasião, Falun Dafa teve apoio de órgãos do governo chinês e recebeu reconhecimento oficial e premiações pelos serviços prestados à sociedade.
 
Em 1998, o movimento contava com 70 a 100 milhões de praticantes na China – número que ultrapassava o de membros filiados ao Partido Comunista chinês – e isso fez com que as autoridades colocassem uma lupa sobre o Falun Dafa. Em seguida, o governo recusou o registro do Falun sob qualquer outra categoria ou órgão oficial. Com isso, a prática deixou de ter amparo legal.
 
DH Online! - Mas por que o governo chinês teve essa atitude?
 
Jan Hendriks - Apesar de o Falun Dafa deixar claro que não tinha propósitos políticos, as autoridades, lideradas pelo presidente Jiang Zemin, de forma injustificada, olharam a questão do Falun Dafa do ponto de vista político e do poder e não sob o prisma dos interesses da sociedade e do bem do povo. Portanto o governo chinês foi quem deu contexto político a uma questão que nada tem a ver com ideologias ou regimes políticos.
 
DH Online! - O que aconteceu a partir desse momento?
 
Jan Hendriks - Teve início uma campanha difamatória e cheia de mentiras e calúnias contra Falun Dafa para tentar deter a crescente aceitação e expansão da prática. Aproximadamente dez mil praticantes de Falun Dafa foram ao governo pessoalmente pedir que as acusações falsas feitas por uma revista chinesa fossem legalmente esclarecidas. O governo se assustou com o número de praticantes e usou o episódio para induzir outras pessoas a acreditarem que Falun Dafa era um movimento organizado com intuito de medir forças com o regime. A idéia era colocar a opinião pública contra Falun Dafa e assim abrir caminho para erradicá-lo da China. Em julho de 1999, Falun Dafa foi, sem reais motivos legais ou morais, considerado ilegal e foi proibido na China. Começou aí uma das maiores e mais brutais perseguições da história contra milhões de seres humanos, privando a sociedade chinesa de seu direito de liberdade de crença e expressão.
 
Até hoje o governo chinês não estabelece razões fundadas e lógicas para essa perseguição, sempre alegando coisas sem nexo e difamações sobre a prática, tais como a de que seria um culto diabólico e uma superstição. Esse conceito sobre Falun Dafa só existe na China, onde não há acesso à verdade dos fatos.

Hoje as organizações de direitos humanos expõem a brutalidade dessa perseguição e junto à ONU existem ações movidas contra a violação dos direitos humanos na China, onde se insere a questão Falun Dafa.

Atualmente, o governo chinês se esforça para abafar a questão da perseguição perante a opinião internacional e usa todos os meios possíveis – pressão econômica e diplomática, censura, distorção de informações e fabricação de informações – para esconder a verdade. Se olharmos para a história, veremos que existiram perseguições injustificadas àqueles que vieram trazer o bem para a sociedade. Isso pode ser visto, por exemplo, na perseguição ao cristianismo, com sua mensagem de amor ao próximo, ou, recentemente, ao budismo, com sua mensagem de compaixão para com todos os seres. É assim também o que ocorre hoje em dia na China, com Falun Dafa e sua mensagem de verdade, benevolência e tolerância.
 
DH Online! - O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, tem manifestado publicamente sua solidariedade ao Falun Dafa. Há alguma relação entre o Falun Dafa e o governo americano?
 
Jan Hendriks - Falun Dafa é um sistema de cultivo e não tem qualquer relação com governos, seja ele americano ou outro qualquer. Qualquer governo sensível a questões humanitárias e que tenha acesso aos fatos se colocará contra as torturas, mortes e atentados contra a liberdade de escolha e expressão. Infelizmente, essas questões se inserem em um contexto político, longe de nosso propósito.
 
DH Online! - Há outras práticas de Qigong na China? Se sim, por que só o Falun Dafa sofre repressão?
 
Jan Hendriks - Sim, há vários outros tipos de práticas na China e muitas delas também sofrem ou sofreram perseguição. Além disso, não podemos esquecer o budismo, o cristianismo e outras práticas religiosas que sofrem muito com a questão de legitimidade e livre atuação. Existe um controle do governo central. Mas nenhuma delas teve o crescimento que teve Falun Dafa, com tamanho número de praticantes.
 
DH Online! - Como começou o seu envolvimento com a prática do Falun Dafa? E qual é o seu envolvimento hoje em dia?
 
Jan Hendriks - Eu conheci Falun Dafa em 2000, na Indonésia. Eu estava na Ásia para aprender técnicas de cura para ajudar as pessoas. Então encontrei o livro Falun Gong, comecei a ler e a aprender os exercícios. Comecei a sentir melhoras em meu corpo e minha mente e a ter vários entendimentos através da prática e do cultivo. Sigo na prática até hoje. Pratico nos parques e ensino gratuitamente a todos aqueles que querem aprender essa prática. Mas, como também fiquei sabendo sobre a perseguição na China, procuro esclarecer as pessoas.
 
DH Online! - Como foi sua experiência na China?
 
Jan Hendriks - Fiquei detido por quase dois dias e fui deportado compulsoriamente. Fui detido na Praça da Paz Celestial, levado a uma delegacia e lá me interrogaram. Depois me levaram para um outro local, sem que respondessem ao meu questionamento sobre o porquê daquela detenção. Não permitiram que eu contatasse a embaixada brasileira. Tomaram alguns dos meus pertences e não me devolveram. Eles me interrogaram e me ameaçaram durante todo o tempo, até que me colocarem em um avião para a França, dias antes de minha volta planejada ao Brasil.
 
Muitos de meus colegas praticantes foram violentamente espancados, tanto homens como mulheres. Tiveram tufos de cabelos arrancados e as calças rasgadas. Na ocasião, éramos mais de trinta pessoas de mais de vinte países lá na China, para falar às pessoas que também éramos praticantes de Falun Dafa e que essa prática era legal fora da China e que estava crescendo em outros países. E que estávamos tentando pacificamente contribuir para o fim dessa perseguição, bem como apoiar os praticantes chineses. Em resumo, queríamos ajudar a salvar vidas. Nossa presença incomodou muito as autoridades locais, pois eles viviam dizendo ao povo chinês que não havia praticantes de Falun Dafa fora da China, mas o povo percebeu que o governo mentiu. A mídia internacional divulgou o caso e conseguimos despertar a consciência internacional sobre o que estava acontecendo com os praticantes na China.
 
DH Online! - Quais são as violações sofridas pelos praticantes? E elas ocorrem em todas as cidades chinesas?
 
Jan Hendriks - Até o inicio de abril deste ano, foram registradas mais de 925 mortes. Há denúncias de que mais de cem mil pessoas estão em campos de trabalho forçado, sofrendo torturas, choques elétricos, inclusive em partes íntimas; calabouço de água, privação do sono por longos períodos; queima e marcação a ferro; exposição a condições climáticas severas, como frio intenso ou calor excessivo; lascas de bambu marteladas embaixo das unhas; abortos forçados; pessoas dependuradas por longo período, estupro e lavagem cerebral. Além disso, um grande número de praticantes saudáveis foi enviado para hospitais de doentes mentais. Foram injetadas drogas que destroem o sistema nervoso central e causam danos psicológicos irreparáveis. Essas torturas são aplicadas em homens e mulheres de todas as idades. A perseguição se estende por todo o território chinês.
 
DH Online! - Como são feitos os apelos ao governo chinês para que cessem as violações contra os direitos humanos? Os praticantes e as organizações de direitos humanos do mundo conseguem denunciar ou dialogar com o governo sobre as violações?
 
Jan Hendriks - Eles são feitos dentro da legalidade, de forma pacífica e utilizando todos os mecanismos oficiais, tais como as ONGs internacionais e órgãos de defesa dos direitos humanos. Não há diálogo e nem convergência.
 
DH Online! - O Falun Dafa já encaminhou alguma denúncia à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas? Os inspetores podem investigar as denúncias?
 
Jan Hendriks - Diversas organizações de direitos humanos relatam a brutalidade e o desrespeito aos direitos humanos na China, tais como a Anistia Internacional e o Observatório de Direitos Humanos.
 
O Brasil é um país com direito a voto na Comissão de Direitos Humanos da ONU e estamos acompanhando a posição do país sobre o assunto. No passado, o Brasil já se absteve de votar e contribuiu para que o processo sobre violações dos direitos humanos na China não tivesse prosseguimento. Enquanto esse processo não for aprovado na ONU, os inspetores não poderão investigar as denúncias.
 
DH Online! - O Falun Dafa ingressou com uma ação no Tribunal Internacional contra o presidente da China, Jiang Zemin, para que seja julgado por crimes contra a humanidade. Como está o andamento desse processo?
 
Jan Hendriks - Em mais de 15 países, processos legais estão sendo movidos contra Jiang Zemin e oficiais do órgão 6-10 – criado para torturar e matar pessoas – e ainda contra outros oficiais chineses que conduzem a perseguição ao Falun Dafa. As ações foram movidas nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Alemanha, na França, na Suécia, em Hong Kong e na Indonésia. Os textos podem ser consultados na Internet.
 
DH Online! - Como as pessoas podem se mobilizar contra as violações de direitos humanos sofridas pelos integrantes do Falun Dafa?
 
Jan Hendriks - A melhor forma de elas ajudarem é estarem bem informadas sobre o assunto. Algumas pessoas enviam mensagens ao consulado chinês para saber a razão das perseguições. Outra forma de ajudar é comentar o assunto com pessoas que possam auxiliar nessa causa: em governos, embaixadas, consulados etc. E promover um esclarecimento sobre os fatos junto ao povo chinês. Contudo há uma grande dificuldade nesse sentido, já que os chineses estão privados das verdadeiras informações. Além disso, a divulgação dessas violações aos direitos humanos na mídia pode contribuir para dar visibilidade ao problema, ajudando no enfrentamento dessa perseguição.
 
* Conjunto de práticas chinesas milenares, que deram base à medicina tradicional chinesa, buscando prevenir e tratar desequilíbrios da saúde por meio de exercícios respiratórios, meditação, estímulo de pontos, meridianos de acupuntura e centros energéticos. Entretanto, algumas linhas de Qigong são voltadas para exibições das habilidades como meio de enriquecimento.


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