Fonte: DHOnline!
Por: Giuliano Djahjah
Bonorandi, colaborou Viviane Gomes.
O Falun Dafa é uma doutrina filosófica que busca
cultivar características como verdade, benevolência e
tolerância (Zhen-Shan-Ren), aperfeiçoando o caráter moral, a
natureza da mente e o coração e buscando a evolução do ser
humano em todos os aspectos – por isso seus praticantes
referem-se a ela como uma “prática de cultivo”. Isto é
alcançado com a realização de exercícios com movimentos
tranqüilos e suaves para transformar corpos e mentes. A
prática foi criada por Li Hongzhi, em 1992, mas em 1999 seus
milhares de adeptos começaram a ser perseguidos – e o Falun
Dafa, antes apoiado, foi proibido, classificado como
superstição e culto diabólico.
Na ocasião, o número de praticantes do Falun Dafa
era maior do que o de filiados do Partido Comunista da China.
As autoridades viram a prática do Falun Dafa como um movimento
político, uma ameaçadora ideologia.
A partir daí teve início uma série de graves
violações dos direitos humanos. Até abril deste ano, foram
registradas mais de 925 mortes de praticantes do Falun Dafa na
China. Organizações internacionais de defesa dos direitos
humanos, tais como a Anistia Internacional e a Human Rights
Watch, elaboraram documentos que relatam a existência de mais
de cem mil pessoas em campos de trabalho forçado, sofrendo
torturas.
O brasileiro Jan Hendriks é praticante de Falun Dafa e
participou de uma manifestação pacífica na China, em 2002,
contra a proibição da prática e as violações de direitos. “Fui
detido na Praça da Paz Celestial, levado a uma delegacia e lá
me interrogaram. Depois me levaram para um outro local, sem
que respondessem ao meu questionamento sobre o porquê daquela
detenção. Não
permitiram que eu contatasse a embaixada brasileira. Tomaram
alguns dos meus pertences e não me devolveram. Eles me
interrogaram e me ameaçaram durante todo o tempo, até que me
colocarem em um avião para a França, dias antes de minha volta
planejada ao Brasil”. Muitos integrantes do grupo, composto
por trinta pessoas, foram espancados e tiveram tufos de
cabelos arrancados, tanto homens como mulheres. “Estávamos
tentando pacificamente contribuir para o fim dessa
perseguição, bem como apoiar os praticantes chineses. Em
resumo, queríamos ajudar a salvar vidas.”
DH Online! - O que é o Falun Dafa? Quais são as
suas bases?
Jan Hendriks - Falun Dafa é um sistema de cultivo que
objetiva o aprimoramento e a elevação do ser humano e tem como
base as características do universo: Zhen-Shan-Ren (verdade,
benevolência e tolerância). O cultivo refere-se ao
aprimoramento do Xinxing, que representa o caráter moral, a
natureza da mente e o coração, buscando a evolução do ser
humano em todos os aspectos. Essa prática é composta por cinco
séries de exercícios com movimentos tranqüilos e suaves e está
relacionada à transformação do corpo, à medida que o Xinxing
da pessoa vai se aprimorando. Com a prática e o cultivo do
Falun Dafa, a pessoa pode atingir elevados níveis de
sabedoria.
DH Online! - O movimento surgiu em 1992 e foi
banido em julho de 1999 pelas autoridades do Partido Popular
da China. As atividades do Falun Dafa foram proibidas,
consideradas como superstições e, mais tarde, como “culto
diabólico”. O movimento tem resposta para essa perseguição?
Por que o governo chinês persegue o Falun
Dafa?
Jan Hendriks - Quando o Falun Dafa foi introduzido ao
público chinês pelo Sr. Li Hongzhi, em 1992, ele foi
registrado na Associação de Pesquisa de Qigong*, da China. Mas
o objetivo central do Falun Gong é diferente do propósito de
outras linhas de Qigong, relacionadas a curar doenças, manter
a saúde ou exibir poderes supernormais, fazendo disso um meio
de ganhar dinheiro. Contrário a isso, em 1994, o Sr. Li
Hongzhi retirou Falun Dafa dessa sociedade. Na ocasião, Falun
Dafa teve apoio de órgãos do governo chinês e recebeu
reconhecimento oficial e premiações pelos serviços prestados à
sociedade.
Em
1998, o movimento contava com 70 a 100 milhões de praticantes
na China – número que ultrapassava o de membros filiados ao
Partido Comunista chinês – e isso fez com que as autoridades
colocassem uma lupa sobre o Falun Dafa. Em seguida, o governo
recusou o registro do Falun sob qualquer outra categoria ou
órgão oficial. Com isso, a prática deixou de ter amparo
legal.
DH Online! - Mas por que o governo chinês teve
essa atitude?
Jan Hendriks - Apesar de o Falun Dafa deixar claro que
não tinha propósitos políticos, as autoridades, lideradas pelo
presidente Jiang Zemin, de forma injustificada, olharam a
questão do Falun Dafa do ponto de vista político e do poder e
não sob o prisma dos interesses da sociedade e do bem do povo.
Portanto o governo chinês foi quem deu contexto
político a uma questão que nada tem a ver com ideologias ou
regimes políticos.
DH Online! - O que aconteceu a partir desse
momento?
Jan Hendriks - Teve início uma campanha difamatória e
cheia de mentiras e calúnias contra Falun Dafa para tentar
deter a crescente aceitação e expansão da prática.
Aproximadamente dez mil praticantes de Falun Dafa foram ao
governo pessoalmente pedir que as acusações falsas feitas por
uma revista chinesa fossem legalmente esclarecidas. O governo
se assustou com o número de praticantes e usou o episódio para
induzir outras pessoas a acreditarem que Falun Dafa era um
movimento organizado com intuito de medir forças com o regime.
A idéia era colocar a opinião pública contra Falun Dafa e
assim abrir caminho para erradicá-lo da China. Em julho de
1999, Falun Dafa foi, sem reais motivos legais ou morais,
considerado ilegal e foi proibido na China. Começou aí uma das
maiores e mais brutais perseguições da história contra milhões
de seres humanos, privando a sociedade chinesa de seu direito
de liberdade de crença e expressão.
Até hoje o governo chinês não estabelece razões
fundadas e lógicas para essa perseguição, sempre alegando
coisas sem nexo e difamações sobre a prática, tais como a de
que seria um culto diabólico e uma superstição. Esse conceito
sobre Falun Dafa só existe na China, onde não há acesso à
verdade dos fatos.
Hoje as organizações de direitos humanos expõem a
brutalidade dessa perseguição e junto à ONU existem ações
movidas contra a violação dos direitos humanos na China, onde
se insere a questão Falun Dafa.
Atualmente, o governo chinês se esforça para abafar a
questão da perseguição perante a opinião internacional e usa
todos os meios possíveis – pressão econômica e diplomática,
censura, distorção de informações e fabricação de informações
– para esconder a verdade. Se olharmos para a história,
veremos que existiram perseguições injustificadas àqueles que
vieram trazer o bem para a sociedade. Isso pode ser visto, por
exemplo, na perseguição ao cristianismo, com sua mensagem de
amor ao próximo, ou, recentemente, ao budismo, com sua
mensagem de compaixão para com todos os seres. É assim também
o que ocorre hoje em dia na China, com Falun Dafa e sua
mensagem de verdade, benevolência e tolerância.
DH Online! - O presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, tem manifestado publicamente sua solidariedade
ao Falun Dafa. Há alguma relação entre o Falun Dafa e o
governo americano?
Jan Hendriks - Falun Dafa é um sistema de cultivo e não
tem qualquer relação com governos, seja ele americano ou outro
qualquer. Qualquer governo sensível a questões humanitárias e
que tenha acesso aos fatos se colocará contra as torturas,
mortes e atentados contra a liberdade de escolha e expressão.
Infelizmente, essas questões se inserem em um contexto
político, longe de nosso propósito.
DH Online! - Há outras práticas de Qigong na
China? Se sim, por que só o Falun Dafa sofre
repressão?
Jan Hendriks - Sim, há vários outros tipos de práticas
na China e muitas delas também sofrem ou sofreram perseguição.
Além disso, não podemos esquecer o budismo, o cristianismo e
outras práticas religiosas que sofrem muito com a questão de
legitimidade e livre atuação. Existe um controle do governo
central. Mas nenhuma delas teve o crescimento que teve Falun
Dafa, com tamanho número de praticantes.
DH Online! - Como começou o seu envolvimento
com a prática do Falun Dafa? E qual é o seu envolvimento hoje
em dia?
Jan Hendriks - Eu conheci Falun Dafa em 2000, na
Indonésia. Eu estava na Ásia para aprender técnicas de cura
para ajudar as pessoas. Então encontrei o livro Falun Gong,
comecei a ler e a aprender os exercícios. Comecei a sentir
melhoras em meu corpo e minha mente e a ter vários
entendimentos através da prática e do cultivo. Sigo na prática
até hoje. Pratico nos parques e ensino gratuitamente a todos
aqueles que querem aprender essa prática. Mas, como também
fiquei sabendo sobre a perseguição na China, procuro
esclarecer as pessoas.
DH Online! - Como foi sua experiência na
China?
Jan Hendriks - Fiquei detido por quase dois dias e fui
deportado compulsoriamente. Fui detido na Praça da Paz
Celestial, levado a uma delegacia e lá me interrogaram. Depois
me levaram para um outro local, sem que respondessem ao meu
questionamento sobre o porquê daquela detenção. Não permitiram
que eu contatasse a embaixada brasileira. Tomaram alguns dos
meus pertences e não me devolveram. Eles me interrogaram e me
ameaçaram durante todo o tempo, até que me colocarem em um
avião para a França, dias antes de minha volta planejada ao
Brasil.
Muitos de meus colegas praticantes foram violentamente
espancados, tanto homens como mulheres. Tiveram tufos de
cabelos arrancados e as calças rasgadas. Na ocasião, éramos
mais de trinta pessoas de mais de vinte países lá na China,
para falar às pessoas que também éramos praticantes de Falun
Dafa e que essa prática era legal fora da China e que estava
crescendo em outros países. E que estávamos tentando
pacificamente contribuir para o fim dessa perseguição, bem
como apoiar os praticantes chineses. Em resumo, queríamos
ajudar a salvar vidas. Nossa presença incomodou muito as
autoridades locais, pois eles viviam dizendo ao povo chinês
que não havia praticantes de Falun Dafa fora da China, mas o
povo percebeu que o governo mentiu. A mídia internacional
divulgou o caso e conseguimos despertar a consciência
internacional sobre o que estava acontecendo com os
praticantes na China.
DH Online! - Quais são as violações sofridas
pelos praticantes? E elas ocorrem em todas as cidades
chinesas?
Jan Hendriks - Até o inicio de abril deste ano, foram
registradas mais de 925 mortes. Há denúncias de que mais de
cem mil pessoas estão em campos de trabalho forçado, sofrendo
torturas, choques elétricos, inclusive em partes íntimas;
calabouço de água, privação do sono por longos períodos;
queima e marcação a ferro; exposição a condições climáticas
severas, como frio intenso ou calor excessivo; lascas de bambu
marteladas embaixo das unhas; abortos forçados; pessoas
dependuradas por longo período, estupro e lavagem cerebral.
Além disso, um grande número de praticantes saudáveis foi
enviado para hospitais de doentes mentais. Foram injetadas
drogas que destroem o sistema nervoso central e causam danos
psicológicos irreparáveis. Essas torturas são aplicadas em
homens e mulheres de todas as idades. A perseguição se estende
por todo o território chinês.
DH Online! - Como são feitos os apelos ao
governo chinês para que cessem as violações contra os direitos
humanos? Os praticantes e as organizações de direitos humanos
do mundo conseguem denunciar ou dialogar com o governo sobre
as violações?
Jan Hendriks - Eles são feitos dentro da legalidade, de
forma pacífica e utilizando todos os mecanismos oficiais, tais
como as ONGs internacionais e órgãos de defesa dos direitos
humanos. Não há diálogo e nem convergência.
DH Online! - O Falun Dafa já encaminhou alguma
denúncia à Comissão de Direitos Humanos da Organização das
Nações Unidas? Os inspetores podem investigar as denúncias?
Jan Hendriks - Diversas organizações de direitos
humanos relatam a brutalidade e o desrespeito aos direitos
humanos na China, tais como a Anistia Internacional e o
Observatório de Direitos Humanos.
O
Brasil é um país com direito a voto na Comissão de Direitos
Humanos da ONU e estamos acompanhando a posição do país sobre
o assunto. No passado, o Brasil já se absteve de votar e
contribuiu para que o processo sobre violações dos direitos
humanos na China não tivesse prosseguimento. Enquanto esse
processo não for aprovado na ONU, os inspetores não poderão
investigar as denúncias.
DH Online! - O Falun Dafa ingressou com uma
ação no Tribunal Internacional contra o presidente da China,
Jiang Zemin, para que seja julgado por crimes contra a
humanidade. Como está o andamento desse
processo?
Jan Hendriks - Em mais de 15 países, processos legais
estão sendo movidos contra Jiang Zemin e oficiais do órgão
6-10 – criado para torturar e matar pessoas – e ainda contra
outros oficiais chineses que conduzem a perseguição ao Falun
Dafa. As ações foram movidas nos Estados Unidos, no Canadá, na
Austrália, na Alemanha, na França, na Suécia, em Hong Kong e
na Indonésia. Os textos podem ser consultados na
Internet.
DH Online! - Como as pessoas podem se mobilizar
contra as violações de direitos humanos sofridas pelos
integrantes do Falun Dafa?
Jan Hendriks - A melhor forma de elas ajudarem é
estarem bem informadas sobre o assunto. Algumas pessoas enviam
mensagens ao consulado chinês para saber a razão das
perseguições. Outra forma de ajudar é comentar o assunto com
pessoas que possam auxiliar nessa causa: em governos,
embaixadas, consulados etc. E promover um esclarecimento sobre
os fatos junto ao povo chinês. Contudo há uma grande
dificuldade nesse sentido, já que os chineses estão privados
das verdadeiras informações. Além disso, a divulgação dessas
violações aos direitos humanos na mídia pode contribuir para
dar visibilidade ao problema, ajudando no enfrentamento dessa
perseguição.
* Conjunto de práticas chinesas milenares, que
deram base à medicina tradicional chinesa, buscando prevenir e
tratar desequilíbrios da saúde por meio de exercícios
respiratórios, meditação, estímulo de pontos, meridianos de
acupuntura e centros energéticos. Entretanto, algumas linhas
de Qigong são voltadas para exibições das habilidades como
meio de enriquecimento.